"Mas nenhum outro escritor o descreveria com tamanha exatidão como eu sou capaz de descrevê-lo. Nenhuma outra pessoa seria capaz de decifrar esses seus olhos calados, como eu faço durante há tempos. Ninguém é capaz de manusear suas mãos como eu as manuseio.
A roda gigante não parou quando você disse que iria embora. O céu continuou em cima de nossas cabeças, mas o chão pareceu ter se dissolvido, caído. Eu deveria saber que uma hora você se cansaria, não de mim, mas da mesmice que o amor às vezes se torna, que ele sempre se torna na verdade. Aquela mesmice branda, que acontece aos poucos, sem nenhum tipo de preparou ou escolha. O amor às vezes se torna tão obvio que nos acostumamos com a solidão que ele causa essa solidão de dois, porque é assim que o tempo faz com o amor, nos faz sentirmos sozinho, e há muito você já se sentia sozinho, talvez eu devesse ter sido mais presente com meu amor, deveria ter tido menos medo de amar e de ser amado. Mas você sempre soube, deixei isso bem claro para você, eu sempre tive um coração fraco e amar demais seria pior para esse coração que não agüentava mais bater, e ser amado demais também poderia causar sérios problemas, poderia sobrecarregar aquele que um dia foi sobrecarregado demais. Eu tive medo de amar e por si só, deixei que o tempo lhe levasse talvez para aonde eu nunca mais pudesse alcançá-lo mais.
Mas nenhum outro escritor é capaz de descrever suas falhas, de traduzir suas palavras e transcrever o que seu silêncio diz, como eu faço. Porque eu sou a melhor pessoa para descrever você, talvez agora eu não seja a mais adequada, depois de tantas mudanças que em você ocorreu, talvez você tenha mudado para aqueles que te conhecem só por fora, só uma parcela do que você realmente é, mas eu ainda assim, consigo ver o garoto do coração inflado de tanto que ama quando olho nos seus olhos calados. Eu ainda assim enxergo você como no começo, encantador, indisciplinado e um eterno imaturo que nunca foi capaz de assumir que errou. Mas dessa vez você não tem de assumir nada, dessa vez você não teve se quer uma parcela de culpa sobre tudo que ocorreu ou deixou de ocorrer. A culpa foi minha, foi culpa minha tudo acontecer desse jeito. Foi culpa do meu medo do amor e do meu coração frágil demais para ele. Foi culpa dessa solidão de dois que o tempo causou e culpa do amor, que sempre foi demais para nós dois e mesmo assim não o suficiente para continuarmos atados.
E foi essa solidão de dois, foi esse vazio que se abriu entre nossos corações apaixonados, e que tanto pulsavam quando nos amávamos, que nos destruiu por completo, nos derrubou como se fossemos pesos leves. Foi o tempo. Foi a falta de calor que com o tempo foi deixando de existir. Foi tudo e ao mesmo tempo foi nada que nos desatou.
Mas talvez a culpa não tenha sido dessa solidão de dois, e sim dessa solidão na qual antes de você eu havia me acostumado. Porque você sabe que somos adaptáveis e confesso que viver sem ninguém, sem ter que sofrer por alguém é melhor, mais saudável talvez. Evita prejuízos, como: contas altamente exacerbadas nas farmácias, nos mercados; evita desgaste psíquico e físico. Evita um coração desconfigurado com o excesso de amor ou talvez a falta de reciprocidade. Talvez ser sozinho seja melhor, porque amar e amar demais e amar pouquinho, ou apenas amar enlouquece, e por mais que muito digam que o amor enobrece o homem, eu digo e repito: O amor só enobrece aqueles que sabe lidar com ele, aqueles que não tem medo que o coração se infle e que ele doa de tanto amar. Só enobrece aqueles que são amados assim como ama e que nunca temem a partida.
Eu disse que seria capaz de descrevê-lo, melhor do que qualquer outro escritor. Disse que manuseio suas mãos melhor do que qualquer outra pessoa. Só esqueci-me de dizer que só não sei amar você melhor do que os outros, porque as vezes eu te amo tanto e tanto e tanto, que tenho medo de sufocar você e te matar com tanto amor. Só não disse que sou a pessoa mais certa para amar você, porque no fundo eu tenho um medo enorme, de que apenas eu ame, tenho um medo enorme de que juntos ainda assim, sejamos sozinhos. Porque no fundo, eu tenho medo de te amar."
"Me leve ao motel — Eu disse, sem medo ou vergonha.
Ele se assustou, ele na verdade se sentiu intimidado ou algo do tipo. Acho que é assim com os moleques, eles se intimidam com mulheres. Com mulheres bem resolvidas. No caminho nenhum barulho, ele era só mais um paquera da noite, mas eu queria experimentar um pouco dele e não seria dentro de uma carro, ele queria ali mesmo, dentro do carro banco com estofamento horrível ia acabar me machucando. Ele queria dentro do banheiro da boate, mas eu aprendi que banheiro não dá nenhum conforto e quis ir pra um motel, não levaria pra minha casa um estranho e muito menos iria pra casa de um estranho. Motel, recepcionista, garagem, hidromassagem e espelho no teto. Ele olhava despistada mente pra mim, eu ria e ele não entendia os motivos. Chegamos à recepção.
“Recepcionista: Qual o quarto que o casal vai querer?”. Confesso, me irritei um pouco, ela era inexperiente ou o quê? Dava pra ver que não éramos um casal, seria apenas sexo e depois nem iria lembrar o seu nome, na verdade eu não sabia o nome dele. Ele não respondeu, ele não deveria transar muito. Indago: “Suíte, por favor.” Ele me olha e pergunta se é o mais caro, e eu digo que o que tem mais conforto, homens sempre se preocupando com o preço, mas o problema não era o dinheiro
— Eu pago, relaxa — Eu disse a ele. Subindo as escadas começamos a ficar mais quentes, seu beijo era doce, calmo, ele parecia fazer com sentimento e isso que me instigou. Como pode fazer com tanto carinho com uma estranha? Na escada eu o fiz ter o primeiro orgasmo, sexo oral. Ele me fez elogios, disse que eu tinha uma boca quente. Ele não foi o primeiro, mas, por favor, sem julgamentos. Não sou vadia por fazer sexo com alguém livre. Cama redonda, espelho no teto. Adoro esse cheiro de sexo, é tão cafajeste. Ele ficou admirado com o banheiro, tolo. Deveria ser a primeira vez em um motel, e quem sabe a primeira vez com uma mulher. Ele me disse que tinha que me confessar uma coisa. Eu achei que era alguma doença venérea que ele tinha, e se fosse isso o filho da puta ia pagar caro, ou pior que isso era um assalto, apesar de que eu adoraria ser assaltada em um motel, ele poderia me roubar tudo menos a minha virgindade. Então ele diz :
— Eu sou virgem.
Paro, sento e respiro. — Não pode ser, sério?
— Sim, algum problema?
Droga, um virgem ali na minha frente e eu de cinta liga vermelha, por favor Deus, por que eu?
— Não, nenhum…
Tudo bem, eu sou uma boa atriz, deve ser o curso de teatro que eu fazia. Na verdade não estava tudo bem, eu nunca fiquei com um virgem. Me senti um homem iniciando uma garotinha.
— Mesmo?
— Não!
Meu ponto forte sempre foi a sinceridade.
— Quer que eu vá embora?
Deu-me pena, ele estava recolhendo as coisas. Constrangido ele estava, eu não podia fazer isso, ele era da minha idade e ainda virgem, o problema não é ele ser virgem, mas sim eu expulsa-lo do quarto e acabar com auto-estima dele.
— Tá louco? Vai a lugar algum… Fica aí. Mas me diz, qual é teu nome?
— Eduardo… E o seu?
— Lorena.
Sentei-me do lado dele, ele cheirava bem. Sua barba falha, na luz da boate eu não pude enxergar direito a sua beleza. Ele era lindo, sorriso imperfeito, porem perfeito, sabe? Ele me encantou desde o beijo até a virgindade.
— Nome da minha mãe.
— Cara… Não precisa usar essa cantada agora.
— Não é cantada, é o nome dela — Disse pegando a carteira para me mostrar a identidade.
— Desculpa, é que geralmente usam essa cantada.
— Não sou homem de usar cantadas.
Nesse instante vi que ele não era mais um moleque, era homem. Eu fui para transar, mas eu queria conhecer mais dele e modéstia parte aposto que ele queria conhecer mais de mim, aposto que ele queria saber.
— Desculpa.
— Não se desculpe Lorena.
— Quer beber alguma coisa?
— Cerveja.
Odeio cerveja, odeio. Tem um gosto forte, prefiro bebidas destiladas. Mas eu não poderia mandar nele, e no que ele queria beber.
— Trabalha com o que?
— Formei em direito, ainda não tenho emprego. E você?
Moleque! Eu não me engano. Me deu um tesão imaginá-lo de terno e gravata. Deu-me tesão imaginar ele assumindo um caso, defendendo algum criminoso. Eu queria transar.
— Escritora.
— Romances?
— Erotismo — Disse com ar sarcástico, queria que ele entendesse que eu queria ter ele.
— Vai escrever sobre essa noite?
— Não faço biografia sobre o sexo que eu faço.
Ele teve uma idéia boa, eu nunca havia pensado em escrever sobre o sexo que eu fazia, o sexo que eu conhecia. Sempre escrevi sobre historias nas quais nunca participei.
— Eu te achei muito linda.
— Eu te achei muito gostoso.
— Eu preciso dizer mais alguma coisa?
Caramba, o que falta mais? Ele falar que tem alguma doença terminal, ou algo do tipo?
— Eu tenho câncer.
Maldita boca, eu extasiada fiquei. Virgem, lindo e com câncer? Droga. Que Deus me perdoe, mas por que eu?
— Desculpa, é que eu não sei o que falar… Você me parece tão saudável.
— É o que todos acham. Vamos transar? Eu posso morrer semana que vem…
Nesse momento eu parei de respirar, meu coração acelerou mais rápido, pode parecer idiotice, mas ele havia me escolhido para ter uma transa, ele era virgem e poderia morrer e eu fui a escolhida. Não irei me tornar uma heroína, mas é algo nobre.
— Posso perguntar algumas coisas?
— Claro…
— Por que ainda é virgem?
— Eu namorei uma mulher a minha vida toda, ela disse que transaria só depois do casamento, mas quando descobriu que eu estava doente terminamos, ela disse que não era enfermeira.
Depois eu que era a vadia? Ela perdeu um doce de pessoa. Eduardo cada vez mais me encantava. Cada vez mais me envolvia em seus olhos azuis piscina.
— Vadia — Disse sem querer.
— Quem?
— Desculpa, mas a sua ex-namorada.
— Verdade — Ele riu.
Rimos por um minuto e nos calamos por cinco. Era louca essa situação, nem em meus livros teve uma historia de tamanha surpresa.
— Então…
Ele se aproximou de mim, sua mão estava tremula. Ele estava cada vez mais lindo pra mim. Ele pegou em minha nuca me levou até sua boca, eu subi sobre ele, fui tirando sua camisa, ele estava confuso com o que fazer, eu estava me entregando por encantamento, não era só sexo mais. Camisinha, ele estava em mim. Movimentos sutis, ele ficava lindo tendo orgasmo. Deitamos na cama novamente, eu deitado sobre seu peito.
— Você é linda.
— Você já disse isso — Ria.
— Não me canso de repetir.
— Para…
— Com o quê?
— De me fazer apaixonar por você…
— Por um desconhecido? Um que pode morrer? Você se apaixonaria?
— Não só apaixonaria, como estou.
Ele me segurou firme, olhando dentro de meus olhos. Eu estava me envolvendo, estava querendo cuidá-lo.
— Você fica cada vez mais linda — Riu.
— Você me encanta cada vez mais.
— Como fui por ser uma primeira vez? Quem sabe última…
— Não diga que será a última, ainda temos algumas horas aqui. Você foi excelente.
Ele voltou a me beijar, agora ele se sentia mais seguro pra tomar conta da ação, eu gosto assim, prefiro que tomem conta da ação. Mãos grandes, tudo nele era grande. Era um perfeito amante e deveria ser um ótimo amor.
— Você fica cada vez mais linda.
— Você fica cada vez melhor no sexo.
— Eu ainda irei te ver?
— Como assim?
Nunca fiz isso, nunca tive um contato com os meus desconhecidos… Mas ele não era mais um desconhecido, ele se chamava Eduardo, sua mãe Lorena e ele têm câncer.
— Não sei, acho que me apaixonei. Você é doce.
— Não sou doce, amarga seria um adjetivo melhor.
— Não, seus olhos, eles são doces. Sua boca, suas palavras. Se fosse pra ter alguém até o dia de minha morte seria você. Você ficaria comigo até eu morrer?
Eu não sabia o que falar. Poderia isso? Poderia surgir uma paixão assim? Não era amor, mas era forte. Uma única noite, apenas para sexo e eu acabo encontrando o homem mais doce.
— E se você não morrer?
— Daí você pode ir embora…
— E se eu não quiser?
— Você fica.
Não gosto de me iludir, mas agora eu queria que ele vivesse, não que eu quisesse a morte dele, mas eu queria que ele vivesse pra ver até onde iríamos. Droga, o sexo virou amor."
"Primeiramente eu queria te pedir desculpas. Queria pedir desculpas por toda minha estupidez e infantilidade. Pela minha grosseria e minha falta de vontade, talvez, apenas de te entender. Eu sei, que você não me conhece muito bem, até porque, eu pareço um livro fechado com senha pra se abrir não é? Ou melhor, eu pareço mais uma história mal escrita, uma coisa muito mal interpretada porque ao mesmo tempo que sou sensata, sou uma bomba pronta pra explodir no lugar errado. Realmente, me desculpe por nem chegar a unha do seu pé. Por não conseguir ser mais bonita, nem mesmo de um vestido de grife enquanto você só ta com esses seus vestes tão simples. É que realmente, você é demais. Você é bonito demais. Você é forte demais. Você é engraçado demais, e se não soar tão estranho e impróprio pra esse texto, você é gostoso demais. E mais uma vez desculpa. E se não poder me perdoar eu te entendo, sei que sou inquisitiva demais e melindrosa demais, e isso realmente não é uma tarefa muito fácil de se lidar. Mas também, não me perdoarei por ter errado tão feio, com a melhor pessoa que eu poderia ter."
"Ele te olha com o canto do olho esquerdo, esboça um sorriso enorme e você jura que a oitava maravilha do mundo acaba de aparecer em sua frente. Ele te vê como ninguém, te toca como jamais alguém te tocou e diz as coisas mais estúpidas do mundo que nunca antes soaram tão corretas. Ele tem um perfume adocicado que você sempre achou tão gay, mas que agora corre maratonas para sentir essa droga novamente. Ele te liga duas da manhã pra dizer que torceu o pé jogando futebol e te faz morrer de preocupação. Ele abraça as amigas, troca torpedos com conhecidas e cumprimenta todas as loiras oxigenadas e morenas esculturais que passam na frente dele. Ele não tem planos para o futuro enquanto você sonha em cursar medicina. Ele não é o cara certo pra você, e você sabe disso. Ele não tem notas altas no colégio, não tem compromisso com porcaria nenhuma e te acorda todo o sábado de madrugada para conversar no celular. Suas amigas reviram os olhos quando você fala dele, sua mãe não suporta ouvir o nome dele e você jura que tudo isso não passa de diversão. Mas no fundo, admite vai… No fundo você sabe que ama cada milímetro daquela carcaça de idiota que ele faz questão de exibir. A voz dele te dá arrepios, as piadas que ele conta para os amigos faz dele o cara mais engraçado do mundo e toda a imperfeição dele te deixa louca. Você o leva a sério demais. E quando ele puxa a tua cintura para si mesmo, você gostaria de pedir para que ele ficasse. Você tem medo de que ele te deixe como já deixou tantas outras antes, você tem medo de encarar aqueles olhos escuros e desmoronar, tem medo de que ele não pense duas vezes antes de te derrubar. Você tem medo de que ele passe a se machucar e não te ligar mais; que ele não te acorde mais, mesmo quando você tem prova no dia seguinte. Você realmente não quer que ele vá embora, certo? Mas você sabe que ele vai. Sempre vai. Ele sempre te deixa. E nenhuma parte tua consegue se importar com isso e interromper o ciclo. Você quer mais. Mesmo sabendo do fim. Porque de certa forma, ele vale a pena."